A primeira vez

Foi a primeira vez que um ponto de interrogação falou comigo.
Em português. Aliás, em inglês também.
Falou por e-mail. Não sabia que ele (ou ela) usava a internet, moderno isso.

Ele (o ponto) disse que era ambulante. Fiquei imaginando como seria a situação.
O ponto de interrogação ambulante andando por aí, chutando pedras e latas e interrogando a vida. será que ela responderia?. queria ouvir a conversa, deve ser de surtar.

Voltando a ele (o ponto) pensando a sua sombra.
Ponto tem sombra? surge na minha cabeça uma sequência de associações:
A interrogação que é a sombra.
A interrogação que assombra.
A interrogação que não se vê nem a sombra...

Parei pensando o dia existencial dela (a interrogação). Afinal se ela pode pensar o meu, porque eu não posso pensar o dela? Aliás. como o dia conseguiria começar com ela ali olhando com aquela cara de pergunta?

Acho que tudo começaria com ela tentando sair da cama. Interrogação dorme enquanto a gente dorme?
E na hora do espelho? vc acorda fica na frente do espelho e...
Ela também se olha?
Rapaz... não tinha pensado nisso, é um paradigma....
O que será que ela vê? o que um ponto de interrogação vê no espelho?
Será que é que nem a história do poço? Será que quando ela olha para o espelho, o espelho também olha para ela?
Não tenho reposta.
Será que ela e sua imagem refletem-se ao infinito como dois espelhos, numa dúvida sem fim?

O que ela faria se conseguir escapar? o que seria do seu dia?
Procuraria outros semelhantes? Encontraria outra interrogação igual? existem dois pontos assim iguais?

Algum ponto de interrogação (e o seu dono) sobreviveriam a uma crise de identidade dessas assim de manhã cedo?

Minha teoria é que a ignoramos (solenemente e sem apelo, afinal fomos ensinados assim). Ignoramos tudo. fechamos o ponto de interrogação. ele fica dentro da gente e não o deixamos sair e isso é "normal"...

Justo a interrogação que é ela mesma a curiosidade e o novo.
Ela que é a nossa própria chave.
Ela que é a comunicação com o mundo. O nosso e o de fora.
A tal dúvida cuja profissão é nos manter acordados, desconfiados e deslumbrados.
Esta riqueza de dúvidas vestidas de perguntas que é o que nos constitui.
Ela é a saída para as nossas toneladas de estupidez diária, aquela que fazemos sem perguntar nada.

Parece até que ela fala grego. e que deusa, nos entende lá do alto dos seus mistérios e nos perdoa (em grego, claro...)

Só assim mesmo. porque ô racinha difícil essa humana, tanto, tanto que as vezes deixo passar uma dúvida, faço que não vi ela passar e me pergunto, pois é, eu me permito um ponto de interrogação externo, paro a frase, pontuo, penso e escrevo no meu espaço, que por acaso neste momento é virtual e deixo ela respirar aqui.
Por quê?
Porque sei que quando clicar em PUBLICAR POSTAGEM, ela será SALVA e dividida em vários bits de boa companhia com os pontos de interrogações de vocês.
É forma de presente meu para vocês, eu sou assim, se acostumem galera, porque daqui eu já estou rindo vendo na cara de vocês um ponto de interrogação e um sorriso.
;)

Valter.

Comentários

Dulce disse…
Tinho, querido, so' mesmo voce para questionar uma "question mark", nao e' mesmo"?". Sim, conclui a leitura com um sorriso.

Beijo grande,
Dulce

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