Sem cera

Andava e a conversa rolou sobre repostas, a minha seria sincera, perguntei se ele sabia disso.
Ele riu, na verdade já estava rindo, com ele mesmo, com a situação, com a resposta que iria ouvir.

Ele tava no mundo dele, querendo conversar com ele mesmo, por isso tentava dizer para mim tudo bem claro, para poder se ouvir, engraçado a gente ver as pessoas conversando com elas mesmas...

Ironia é que, eu é que não me conhecia, nunca ficava mais do que meio conformado em sacar que isso não se completava nunca.

Essa mistura era feliz e triste e eu ficava sempre mexendo, mesmo com o risco de perder o ponto, não parava, acho que sempre foi assim, sempre me interessei por mim mesmo do mesmo jeito que pelo mundo. sempre procurando tradução.

Onde Deus, você traduz o mundo, de que forma? diga a freqüência, quero sintonizar...

Pensei música.

Adriana no juízo, onde mesmo eu deixei o leão que sempre galopei?
Ô Calcanhotto, se tiver de voltar lá, como é que eu me lembro?

Pensei filme.

Nacional. O homem do ano. O mundo pode ser rio ou cavalo.

Rio. Jogado de um lado pro outro nunca vou saber onde parar, mas também não vou ter responsabilidade, a culpa é da correnteza. mas quanto tempo a gente agüenta?

Cavalo. E se eu montar? as rédeas vão estar nas minhas mãos. o peso da direção, a tensão de fazer direito. A liberdade e o risco. O poder e o respeito. A responsabilidade do salto. No escuro.

Pensei poema.

O básico. Pessoa. Bandeira, Drummond. Quintana. Neruda.
Eles falam ao mesmo tempo e apontam pro meu coração.
Olho pra meu peito. não vejo nada. Fecho os olhos. fico em silêncio, Escuto.

É isso, dá pra acreditar? o coração fala. Pede ar.
O único que ele tem condição de respirar sem esforço, sem sobrecarga... o ar livre.
Livre de tudo que me atrapalha.
Ar misturado com o que me alimenta, não do que me mata a fome.
Ar abraço de liberdade.
Liberdade de não ter vergonha, de ser quem se é por completo.
Sem fingimento.
Sem teatro.
Sem caras sociais de reserva no guarda roupa.
Sem vergonha do julgamento dos outros, nem de suas pequenas escolhas diárias pela infelicidade.

Será que é uma indireta? O emocional pede pra eu sentir o ar que eu ando respirando e o músculo involuntário dá a entender que anda batendo diferente, ele me pergunta se eu estou percebendo.

É uma pergunta, será que quero perceber?

Acho que ele que tá pedindo para eu não aumentar o descompasso, pede pra seguir junto se eu quiser ser feliz, se não quiser não precisa é claro.

A escolha é minha. Ele me encara, fico sem graça pois não sabia que coração tem olhos, vejo no olhar a pergunta: Vai jogar, passar ou vai continuar fazendo essas suas... apostas??

Respiro fundo. Abro os olhos. Vou no espelho. Me olho. Examino o cara que eu vejo:

Idealista. Diariamente metralhado, mas ainda em pé.
Sofrido. Achando cada dia tá mais difícil aturar a lenta transformação do mundo.
Decepcionado. A falta de lealdade própria e o medo de se arriscar das pessoas.
Sensível. Cada dia mais doído com a dor do mundo.
Impaciente. O erro adulto de dar pouca importância a solidariedade.
Otimista. As crianças que nós somos e a nossa vontade de aprender.
Tímido. Cada dia menos tímido em ser eu mesmo.
Sedento. Igual a um hippie.
Contemplativo. pensando e observando tudo dos ângulos mais estranhos.
Racional. Felizmente cada dia menos racional.
Intuitivo. Indo pro lado espiritual e reaprendendo o emocional.
Teimoso. Ficando cada dia mais teimoso...

Como é que pode? seria mais fácil se fosse de um jeito só.
Pôxa, eu misturo tudo...
Vem um suspiro lento.
Vem um meio sorriso-orgulho,
Vem um meio sorriso-compreensão dos meus limites. Das cercas que eu derrubo diariamente.

Dou risada. Religo a realidade. Meu colega também está rindo, não sei o motivo, mas talvez seja o mesmo, o mundo é engraçado e ele sabe que eu estou viajando nisso. Enquanto vamos andando ele pergunta se eu sei de onde vem a origem da palavra sincero.

Eu não sei.

Ele diz que a palavra é romana. Lá eles fabricavam certos vasos de uma cera especial. Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita que os vasos se tornavam transparentes. Em alguns casos, dava pra ver o que estivesse no interior do vaso. Aí eles diziam que parece até que não tem cera, "Sine cera " queria dizer "sem cera", uma qualidade de vaso perfeito, que deixava ver através de suas paredes e da antiga cerâmica romana.

Me lembrei do filme "O Mentiroso", em que o pai prometia ao filho não mentir por um dia e de tudo que acontece daí em diante. Comparo com minha vontade de transformar o mundo pela verdade e sinceridade.

Minha luta eterna, até descobrir que tentava com o mundo errado, mas que mesmo assim foi bom pra me treinar.

Agora que eu sei qual é o mundo que realmente faz a diferença: O meu.

O outro é reflexo dele.

Ê mundinho...

(vontade de rir muito)

Desejo a vocês todos (aos homens e mulheres de boa vontade e aos de má vontade também), um final de ciclo (Natal e Ano novo) e uma vida nova cheia de muitos ciclos Sine cera.

:)
Valter.

Comentários

Débora disse…
Eu tô meio ausente de seu bog, mas não é por falta de gosto em lê-lo não, é simplesmente por falta de ânimo pra escrever de volta, acho que hoje tenho menos olheiras, mas ainda quero os abraços, e dessa forma vim ler, e confesso que adorei me sentir uma "sem cera", não pela busca da perfeição, mas pela transparência, sem modestia, mas sinceridade é uma das minhas poucas qualidade.

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