Ad Misericordiam

Me contaram que um advogado, depois de tentado tudo que podia, apelava pra um recurso, vamos dizer assim, criativo, pra não dizer outra coisa.
O cara diminuía a argumentação verbal e suspirava, baixava um pouco os ombros e depois levantava novamente, parecendo que reunia todas as forças para uma luta que tinha o compromisso de enfrentar.
Ia pra bem perto do juri, retirava um relógio, daqueles antigões, de bolso. com corrente de ouro e tudo o mais.
Sim, meu amigo, existiam relógio assim, aliás, as correntinhas tem gente que usa até hoje.
Bom, mas o cara olhava fixamente pro relógio em silêncio e suspirava, dessa vez mais profundamente, de saudade como ele explicava depois.
Era como se precisasse ver as horas ali junto com a sua ilustre platéia a medida que mancava.
-- Mancava?
-- Sim, eu não disse?
-- Não.
-- Desculpe, pois é o ilustríssimo mancava, ainda mais agora, não sei porque.
Contava uma história muito sentida, dizendo que quem via ele assim vistoso, doutor e tudo, não imaginava que teve uma infância difícil.
Seu pobre e muito honesto pai, bancou com enormes dificuldades o seu estudos e quando ele finalmente se formou, o coitado estava muito doente e pediu no seu leito de morte que ele jurasse honestidade acima de qualquer suspeita e se despediu dando de presente aquele relógio que ele estava usando e dizendo quase num suspiro:
-- Vai filho e defende as causas justas!.
Com a voz rouca e aquele silêncio no ar, era a hora das lágrimas nos olhos e é claro o pedido de desculpa pela emoção.
Mancando mais ainda, ele ia apelando e atraindo para si a piedade e a compaixão do público para conseguir que a sua conclusão fosse a aceita e com isso a transferência emocional para o réu se completasse.
O cara não se importava se quem era julgado era mafioso, importava era que estavam pagando.
O respeitável público não sabia que o dinheiro está acima da moral?
Melhor assim. Quanto menos gente sabendo melhor.
Ainda bem que era tudo um filme antigo, padrão americano.
Não me decidia se pra ficar feliz e triste com isso.
Afinal era uma falácia, contada de um jeito engraçado, com humor, em um mundo de mentira, mas pelo menos com uma certa ética, e pensei se o canal ético não está cada dia mais difícil da gente sintonizar nas estações modernas do mundo real...

Comentários

Raquel disse…
ta difícil, meu amigo. cada vez mais.. =/

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