Enloucrescendo

Tava no final de um texto de Drummond. Era algo sobre a necessidade de fazer a vida parar e de repente ela parecer que tem sentido. Terminava com um conselho: ENLOU-CRESÇA.

Fui pescado aí, isso sempre acontece comigo deste jeito, me envolvo com algo que teoricamente me direciona, mas que acaba sendo apenas um estimulo que dispara, que me inicia em minha viagem particular.

É que nem uma excursão turística, tem aqueles pontos obrigatórios que todo mundo deve conhecer e que justifica a viagem, mas que são só desculpas pro movimento.

Pois é, nesta associação livre, no meio de movimentos e pensamentos, chego no trem do meu texto em outra estação, esta tem uma conexão mais complicada com o mundo real, lá eu registro para quem interessar possa, uma coisa importante pra mim, que o meu relacionamento, que durou tanto por minha causa, que teve tantas chegadas e partidas, que passou por tanta estação, terminou a viagem.

Mais uma vez?

Não. Acabou mesmo.

E aí?

Bom, tou saindo daquela fase do depois que o furacão passa, tou fazendo o inventário, re-arrumando tudo, fazendo contas, vendo o que sobrou e re-arranjando espaços, vendo se dá pra aproveitar alguma coisa que não tenha junto dor, que não esteja tão grudado com lembranças. Na verdade, re-definindo tudo. re-ligando tudo em outros pontos. permitindo a mim mesmo me cuidar.

Foi aí que percebi que tou viajando de novo, e nem tinha percebido.

Ainda bem que é uma viagem diferente dessa vez, agora tou conhecendo o caminho enquanto vou, realmente criando ele enquanto eu passo. Ao invés de estar enchendo a bagagem, tou esvaziando ela. Em cada parada largo coisas, as vezes troco coisas, as vezes nem percebo o que ficou na hora, só quando chega a outra estação.

Como você tá se sentindo?

Estranho.

Quando termino de pensar essa palavra estranha, vejo na estação o Renato Russo e ele troca comigo um presente, o que será?

Quando abro, é um tipo de vento. vento do litoral. Que presente!
podia ser outra coisa? talvez, o cara é um poeta.

Este cara contemplativo conta de como é tão estranho andar por entre a gente, será que eu ou alguém já tinha percebido isto?

Ele pergunta se o que se pode fazer não é cuidar de si mesmo?.
Ele pensa em voz alta, mas tenho a impressão que a pergunta dele é para o mundo: o plano não era esse, ficar bem? ser feliz ao menos?

Ficamos olhando o mar (pois é, licença poética tem dessas coisas: nesta minha estação tem de tudo, é de frente pro mar, tem vento, ondas e o que eu quiser...), Ele assobia uma música, as vezes fica em silêncio, agradeço, o cara é boa companhia, neste momento, talvez a melhor.

O Renato deixa a onda acertar ele, parece que quer que o vento leve tudo embora, até mesmo ele também.

Ele pega o trem dele, parece que está sozinho, esse cara fantástico sempre me deu essa sensação.

Olho o mar e pergunto também, mas ele, o mar não quer responder.

Vou crescendo e grito pro ar.

Agora meu amigo, minha pergunta também está no vento.
São como balas naquela música.
Balas ao vento.

Comentários

Luis Rocha disse…
Grande Valter,

"As vezes, quando tudo dá errado, acontecem coisas tão maravilhosas que jamais teriam acontecido se tudo tivesse dado certo"

Sempre percebi a vida como uma enorme montanha russa onde o sobe-e-desce é bastante desproporcional em termos de velocidade... para subir leva-se uma eternidade... para descer, bastam apenas alguns segundos...

Concordei quando Paramahansa Yogananda disse: "Não leve as experiências da vida tão a sério. Não deixe principalmente que elas o magoem, pois, na realidade, nada mais são do que experiências de sonho..."
Que a força também esteja com você!

Grande abraço,
Luis Rocha
telma disse…
testando comentario

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