Segunda pele

-- Ela diminuiu a velocidade da minha fala.
-- Fala? Humm..., continue.
-- É, fala. Outras coisas ela aumentou. Mas foi assim, eu estava andando e conversando com uma representante da mesma espécie quando ela invadiu meu espaço.
-- Como?
-- Meu espaço ocular. Atravessou meu campo visual. Invadiu a minha manhã...
-- Humm
-- Fui inocente, minha atenção se concentrou nela. Daí fui pros os detalhes: o movimento, o jeito, sorriso e depois pro menos abstrato: o rosto, cabelo, peito, bunda, corpo de um modo geral, essas coisas, você sabe como é..., e isso evidentemente alterou por completo minha relação com o resto.
-- Resto, sei...
-- Resto do mundo. Fui vítima indefesa, olhe que me esforcei. Não quis comer ela com os olhos.
-- imagino
-- Eu posso jurar
-- Não precisa
-- Olhe, biologicamente eu foi orientado, impulsionado, dirigido. Até a ciência está do meu lado, pode perguntar, é natural, todo mundo come...
-- Come?
-- É, come. Nem sempre com os olhos, mas você saca, né?. tá ligado que comer é ato ativo, da mesma família do verbo aguar, secar, ficar de fissura, querer lascar em banda, traçar, fazer festa, um lanche..., deglutir, papar, arrochar... como é que eu vou dizer?
-- Já entendi. interesse sexual, desejo, tesão pelo objeto do seu desejo, o espécime feminino em questão...
-- É, acho que pode ser descrito assim também...
-- hummm,
-- Mas, e aí, como era?
-- O material?
(suspiro)
-- É, o material
-- De zero a dez?
-- Do jeito que você quiser, espiritualmente ou tesãonicalmente.
-- Muito da gost...
-- Hummmmmm
-- Tem jeito?
-- Precisa de mais dados. Consiga mais. De preferência no mundo real.
-- Outra coisa...
-- Diga..
-- Quando chavear de novo pra cá, viajar de novo nos seus, vamos dizer assim, universos particulares, lembre apenas duas coisas:

1 - Apesar de por aqui o mundo, as mulheres e tudo o mais serem mais interessantes e você poder tudo de tudo, isto não é Pasárgada.
-- Já ouviu falar de Pasárgada, não é?
-- humm, já...
Aqui não é a vida, não se deve morar em sonho. Aqui não exite o tempo. Entendeu?

2 - "No limite", no final, eu, que estou falando com você não existo, nem esse nosso papo, é você é que cria tudo aqui, percebe?

Mas já que estamos aqui, aproveite bastante.
A realidade já tá suspenda mesmo.
Alguém deu pause.
Faça aí o que você quiser com a nossa liberdade.

Afinal, você pensa que é dono da sua imaginação, né?

Comentários

Luciene disse…
gostei muito do seu conto!!!!

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