Na moral

-- O cara já chegou cuspindo fora do lixo. Isso enquanto olhava um papel nas mãos, apertava o celular e o botão do elevador, que já estava apertado, tudo ao mesmo tempo.
-- tá...
-- Ignorava tudo ao redor. Se deslocava dentro do mundo das necessidades dele mesmo. Talvez estivesse ocupado com coisa mais importantes, por exemplo, pensando em como fazer mais coisas ao mesmo tempo, não sei.
-- Você está sendo irônico.
-- Velho, ele era mais um que não tinha mais a capacidade de perceber que havia alguem tão "importante" quanto ele no mundo. Mais um com aquele olhar sem tempo.
-- Parece até uma cegueira, um dos tipos, que nem no filme do Saramago, tá ligado?
-- Belê.
-- Pra você ver, na verdade, podia ser qualquer um, mas por acaso era eu que tava ali e o cara não me viu.
-- Entendi...
-- Estava esperando antes dele e já tinha apertado o botão também. Só uma diferença: Não tinha ninguém antes, então era obvio, a partir daí surge uma fila.
-- Tá. Fila, ordem, organização, regras, você é ligado nessas coisas, né?
-- Não é isso. O que custa o cara e brothers da mesma tribo olharem para fora de si mesmos?
... (silêncio)
-- Que tal mais uma cerveja?
-- Será que entram em crise se houver ordem no mundo? Piram se algo for diferente do que eles pensam? Ou será que ficam menos homens se não levarem vantagem, se não ficarem "por cima"?
.. (silêncio)
-- E aí, mais uma cerveja?
-- No almoço foi a mesma coisa. Pouco espaço. Vagou uma mesa. Sentei lá sozinho. Um cara chegou e conversou com o garçom como se só existissem eles dois. Assim permaneceu até chegarem mais 2 colegas dele, se suportaram educadamente, falaram abrobas, sem a mínima preocupação pela reação dos outros ao redor e se separaram, tão indiferentes e automáticos como mais no mundo não houvesse.
-- Certo..., Garçom!, por favor mais uma ou melhor traga logo duas...
-- O transito então, é reflexo do nosso stress e ele é, por sua vez, reflexo do nosso estilo de viver, isso tudo, percebe? Estamos em sociedade. se a gente não se respeitar vira caos. Sem controle
-- Sei..
-- Você não se preocupa com isso? Vê alguma solução?
-- Sim.
-- Qual?
-- Beber. Bebendo daqui a pouco a gente chega a ela.
-- Tô falando sério.
-- Eu também...
-- Parece que se importar, na realidade, não importa mais.
-- Não dramatize.
-- As pessoas, sabe? Parece que bate na cara delas a realidade e escorre, saca?
-- Não tão nem ai pra civilização, direitos, responsabilidade com o mundo, gerações futuras, nem mesmo pro lance do exemplo para os outros, você me entende?
-- Posso te fazer uma pergunta?
-- Claro.
-- Rapaz, a quanto tempo você tá aqui na terra mesmo?

(Texto vai parar por aqui, termino depois, cabou o tempo).

O tempo devia ser virtual também, né não?
;o)

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