Maria

Fecho a porta e ando um pedaço.
É a chance de ver a cara do dia antes de gastar ele.

Tem mingau de quê?
Milho e Tapioca.

E bolo?
Carimã e laranja.

Adoro Carimã. O bolo é pra levar. De laranja.
A manhã tá bonita.
Peço mentalmente pra ela botar junto um pouco do sol
no saquinho.
Mas não falo.
Tenho medo dela entender mal.

Vai querer canela?
Digo sim com a cabeça.
No meu lado da mesinha

Ela levanta puxando o lado direito.
O lado do derrame
Manca até a panela
A mão negra segura o copo devagar pra conseguir

Sua família é a rua desde quem sabe?
Não sei quanto tempo essa vida.

As pessoas cumprimentam.
É uma rede.

Trocam favor.
Se conhecem.
Fazem piada.
Cuidam.

Estranho sou eu. Todo mundo fala com ela.

Encosto.
Rodo o mingau
Bebo ele e o dia.

Fico de um pé só.
Ela oferece um lado do seu banquinho simples igual a ela

Diz que fica sentada o dia todo.
Que tem de fazer exercício.
A médica mandou.

Fala da falta que faz o filho assassinado.
Se ele tivesse ali as coisas não tavam assim.

Diz que amanhã não vai tá ali, vai falar com o "Devogado"
Diz pra lembrar a menina do troco que deixei

" com a cabeça esquecida" diz a cara sofrida
Olho nela o mapa impressionante do sofrimento
Cada traço com uma história.

O que acaba comigo é a voz.
Baixa. Conformada. Cansada.

Ah, Maria!

O Jesus dela se chamava Wellington. Morreu separando uma briga.
Dizem.

Ah, Marias!
Quando vão entender
Que mundo "humano " não merece vocês?

Até quando vocês aguentam perdoar esta terra por matar seus filhos?

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