Papel molhado

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...Lisboa, 15 Nov - O escritor José Saramago parafraseou hoje Hitler para definir o que são os direitos humanos actualmente, definindo-os como "papel molhado".

"Em todo o Mundo os direitos humanos não contam nada. São, como dizia o Hitler que tem frases interessantes, papel molhado", disse o escritor e prémio Nobel da Literatura à agência Lusa à margem de um encontro comemorativo do 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem pelas Nações Unidas, realizado em Lisboa.

"Trinta direitos estão consignados ali e ao lê-los ou desatamos à gargalhada ou desatamos a chorar", disse José Saramago, sublinhando que está é uma realidade e que é de lamentar.

"Claro que há uma retórica comemorativa a que não se pode fugir, mas se ficamos por aí...", disse, sublinhando que "cada vez mais é necessário comemorar os direitos do homem" uma vez que a conjuntura mundial é de crise económica" e "há milhões de pessoas desempregadas".

Saramago defendeu ainda a necessidade de organizar um "movimento social amplo em defesa dos direitos humanos".

"O problema que nem sempre é pacífico é o que comemoramos hoje e o que é que fazemos nos restantes 365 dias do ano", disse, sublinhando que as comemorações da declaração Universal dos Direitos do Homem não podem ser celebradas como o 05 de Outubro em que se vai ao cemitério homenagear os que implantaram a República.

Para a escritora Alice Vieira, outra das participantes na sessão de hoje, o que "parece grave" é quando os direitos humanos não são cumpridos no nosso dia-a-dia e as "pessoas normalmente nem pensam que isso é um incumprimento dos direitos humanos".

Quando se fala em direitos humanos, "normalmente toda a gente pensa que não são cumpridos no Congo, em Darfur, na Palestina, no Iraque ou no Afeganistão e então aí estamos todos a favor dos direitos humanos quando está em causa o incumprimento e é lá longe", disse.

"O que me preocupa e assusta muito, porque isso é o meu terreno e onde eu ando a trabalhar, é que na parte dos jovens eles nem sequer pensem o que seja o incumprimento dos direitos humanos", referiu.

"Que nem sequer pensem que quando dão pontapés, quando roubam o colega do lado, quando atiram ovos a seja quem for, tudo isso é um incumprimento dos direitos do homem", sublinhou.

Razão por que defendeu que aquela iniciativa em curso devia estar a ser feita "nas escolas" com os jovens para lhes "explicar realmente do que é que se trata quando se fala de direitos humanos".

"Direitos humanos não é só matar pessoas, prender pessoas ou espancar pessoas lá nos confins do mundo", mas sim aquelas "coisas muito comezinhas e muito normais a que nos vamos habituando, que se passam aqui e que é grave", sustentou...

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