Batatas

Pablo Neruda tem um livro, "Confesso que vivi" que conta partes da vida dele.

Li num camping metade do livro, associei com minha vida e hoje de noite me lembrei de alguém que perdi contato e veio na hora a vontade de deixar Pablo falar mais uma vez, só que agora aqui e para ela diretamente.

Espero que ele lhe toque da urgência da vida e do desperdício diário que fazemos das suas pontes.

Ele vivia no Chile no meio da agitação estudantil, fazia parte dela preocupado com a politica do país, a sombra da guerra e os golpes na democracia e na vida de todos eles quando no meio de tudo isso foi chamado por um amigo com urgência total a sua casa.

Mesmo com a cabeça a mil, ele foi ver o que era tão importante assim pra seu amigo artista e pintor.

Lá, o doido disse que tinha achado a saída para a fome do mundo, que era pra ele o motivo da pobreza e da guerra.

Fez suspense pra contar que era batata a solução, acredite se quiser, ele tava convencido que o que podia resolver os problemas daquela época era BATATAS!. batatas mesmo, de verdade...

Pablo, quase pirou com a história, sabia que o amigo viajava as vezes mas aquela era demais... e perdeu a paciência mesmo quando ele explicou que se cada chileno plantasse uma quantidade em sua casa, varias casas na rua, ruas em bairros, cidades e países, já pensou, se acabaria com a fome, na sequência, a pobreza e por tabela a odiosa guerra...

Neruda quase não acreditava que tinha perdido o tempo ali ouvindo aquilo e deixou o amigo falando sozinho, pensando que voltariam um dia a conversar melhor e explicar o sentido ou falta de sentido de tudo aquilo.

No movimento da vida daquele tempo perderam contato e por vários motivos o certo é não se encontram mais ele sentiu a falta do amigo especial, único no seu jeito doido e que ele gostava muito mesmo com suas viagens e loucuras, ou talvez por isso mesmo.

Muito tempo depois ele já famoso em outro país e visitando uma galeria de arte importante, ia ver a mostra de um pintor.
Para chegar a sala tinha de passar por um espaço nobre que expunha quadro apenas de pintores europeus e o único latino que havia no museu inteiro era justamente o do seu amigo.

O quadro era simplesmente espetacular e ele ficou tão desarmado pela aquela descoberta que chorou, não de ver o reconhecimento do amigo depois de morto, mas da descoberta de sua ignorância e imaturidade, arrogância e falta de capacidade de perceber o mundo de seu amigo e o seu próprio e a riqueza que eles tinham juntos, cada um ao seu modo e jeito de viver naquela época.

Decidiu que nunca mais ficaria cego as batatas do mundo, nem perderia por causa delas o que a vida tinha de mais importante: a oportunidade de aprender com o olhar único do outro e do momento vivido.

Coisa que ele como poeta sabia que jamais se consegue recuperar quando perdido, a não ser, é claro, com uma ponte de palavras.

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