Pesava a solidão da chuva
quando vi na janela de manhã cedo
um homem cortando sozinho
o mar com a cintura

A criatura metade negra
parecia na água
inteira
no meio de tanta chuva

Na tela o pescador surreal
pintado de água e vento
no espaço quadrado de cimento do meu quarto
molhou a realidade de repente

Era como ver uma pintura da parede
andar o mar sozinha e apenas com os braços meio abertos
vencer a água, os barcos presos,
as cordas, as bóias e o mundo inteiro

Era como se não notasse
ser único ator humano
no palco do tempo
lá fora

E eu quase não consigo
no meu papel de silêncio
registrar os seus passos lentos pra dentro do mar
levarem meus olhos embora.

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