Poema de um dos mestres...

OS PACIFISTAS

Na Cinelândia, pela tarde,
em bancos vulgares e amigos,
sentam-se homens mal vestidos.

Não mostram pressa de voltar
para casa ou para o trabalho.

Sentam-se em honra de uma vida
que vive dentro de suas vidas
corriqueiras, pardas e tristes,
e lá ficam a ver as pombas
em torno à estátua de Floriano
catando milho distribuído
por um deus amigo das aves,
o deus que no baixar à Terra
preferiu o simples disfarce
de empregado administrativo.

Bicam as pombas, esvoaçam
por entre mármores do Teatro,
do Museu e da Biblioteca,
não que lhes interessem óperas,
livros, telas, artes humanas.

Brincam as pombas: pena, cor,
lampejo entre árvores, tranqüilo
ser-existir infenso ao trágico
mundo que se foi modelando
entre gritos, gagos regougos
lágrimas, cóleras, solércias,
à custa do mundo essencial.

Libertados de todo peso,
deixam-se os homens
desprevenidos face às pombas.

Silenciosos e circunspectos,
são talvez os homens melhores
de nosso tempo assim parados.

Não pleiteam bens ou poderes
mais que o bem e o poder de um banco
alteado no chão de pedrinhas.

Não transportam a guerra n’alma,
não vendem ódio, não tocaiam
nem sofismam quem tem razão
entre sem-razões deste instante.

O vôo não viajeiro basta-lhes
para alimento das retinas
e, ao mirar as pombas, remiram
uma harmonia que perdemos.

Na Cinelândia, aves e homens
redescobrem a paz, em vida.

Carlos Drummond de Andrade,

in Seleta em Prosa e Verso, 1976
Livraria José Olympio Editora

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