Veja essa onda (literalmente). Leia e assista.


Muito bom:

Reproduzo aqui na integra este trabalho.
(muito bom mesmo):

Retirado do site abaixo:

http://www.espacoacademico.com.br/065/65lima.htm



‘A onda’ e o irracionalismo dos grupos*

(comentário sobre o filme “A onda”)


O filme “A onda” [The wave][1] tem início com o professor de história Burt Ross explicando aos seus alunos a atmosfera da Alemanha, em 1930, a ascensão e o genocídio nazista. Os questionamentos dos alunos levam o professor a realizar uma arriscada experiência pedagógica que consiste em reproduzir na sala de aula alguns clichês do nazismo: usariam o slogan “Poder, Disciplina e Superioridade”, um símbolo gráfico para representar “A onda”, etc.

O professor Ross se declara o líder do movimento da “onda”, exorta a disciplina e faz valer o poder superior do grupo sobre os indivíduos. Os estudantes o obedecem cegamente. A tímida recusa de um aluno o obriga a conviver com ameaças e exclusão do grupo. A escola inteira é envolvida no fanatismo d’A onda, até que um casal de alunos mais consciente alerta ao professor ter perdido o controle da experiência pedagógica que passou ao domínio da realidade cotidiana da comunidade escolar.

O desfecho do filme é dado pelo professor ao desmascarar a ideologia totalitária que sustenta o movimento d’A onda , denuncia aos estudantes o sumiço dos sujeitos críticos diante de poder carismático de um líder e do fanatismo por uma causa.

Embora o filme seja uma metáfora de como surgiu o nazi-fascismo e o poder de seus rituais, pode conscientizar os estudantes sobre o poder doutrinário dos movimentos ideológicos políticos ou religiosos. O uso de slogans, palavras de ordem e a adoração a um suposto “grande líder” se repetem na história da humanidade: aconteceu na Alemanha nazista, na Itália fascista, e também no chamado ‘socialismo real’ da União Soviética, principalmente no período stalinista, na China com a “revolução cultural” promovida por Mao Tsé Tung, na Argentina com Perón, etc. Ainda, recentemente, líderes neo-populistas da América Latina, valendo-se de um discurso tosco anti-americano, conseguem enganar uma parte da esquerda resistente a aprender com a história.

Experiência pedagógica e política

Feito para a televisão, ‘A onda’ [The wave], foi baseado em um incidente real ocorrido em uma escola secundária norte-americana em 1967, em Palo Alto, Califórnia. Antes de virar filme, foi romanceado em livro. A idéia do filme, com 45 minutos, era para fazer parte do currículo da escola, para estudar, refletir e se prevenir contra a onda nazi-fascista que começou no final da década de 30. Com a derrota do nazi-fascismo na 2ª. Guerra Mundial e o surgimento da ‘guerra fria’, filmes assim, podem funcionar como alerta contra pregações doutrinárias que fazem apologia aos totalitarismos de direita ou de esquerda[2]. Muitas vezes, o doutrinamento pró-totalitarismo ocorre no âmbito universitário, como se fosse ensino ‘científico’, onde a democracia é considerada uma má invenção ‘burguesa’ e a política uma prática a ser superada por um ‘novo’ sistema desenhado pelo abstracionismo teórico.

“A Onda” é uma metáfora que se aplica, mais ou menos, a qualquer movimento de massa respondente aos apelos de um líder carismático ou de uma causa mítica irracional. Foi assim com os atos criminosos da Ku Klux Klan, o macartismo que desencadeou a “caça às bruxas”[3] perseguindo todos os supostos “comunistas” nos EUA, os governos de direita da América Latina com traços totalitários como foi o de Pinochet (Chile), o regime de apartheid da África do Sul (antes de Nelson Mandela), o processo de “limpeza étnica” conduzida pelos sérvios nos Bálcãs, os grupos neonazistas skinheads espalhados pelo mundo, os carecas do ABC paulista, e o movimento separatista do Iguaçu, no Paraná, entre outros menos conhecidos. Também, os partidos políticos neonazistas abrigados no regime democrático, na Áustria, chefiado por J.Haidern, e na França, por Jean Marie Le Pen. Devem ser, ainda, incluídos os líderes com traços protofascistas (Eco, 1995): Berlusconi, que passou pelo governo da Itália, e líderes totalitários com traço imperial, como King Jon Il (Coréia do Norte), Assad (Síria), ou de milícias que ocupam o vazio do Estado (Hizbolá, Hamas, FARC, PCC) cujos atos truculentos faz semelhança com tantos movimentos fascistas italiano, espanhol, e mesmo o integralismo, no Brasil. No período da ditadura militar, depois 1964, no Brasil, surgem grupos de extrema-direita, como a TFP (Sociedade da Tradição, Família e Propriedade) e o CCC (Comando de Caça aos Comunistas), ambos com intenções de causar uma ‘onda’ de cooptação dos jovens para a sua luta ideológica e até terrorista[4].

Também líderes eleitos democraticamente, mas cujas manobras deixam transparecer traços totalitários (George W. Bush, Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad). Notamos que o traço comum entre estes líderes é a capacidade de fanatizar as massas por uma causa racional ou irracional, se valendo de métodos antidemocráticos como a censura, perseguições, prisões arbitrárias, elogios aos feitos do suposto ‘grande líder’, etc.

Também podem ser incluídos, hoje, como parte da onda protofascista (sic) os movimentos fundamentalistas (cristão, judaico, islâmico). O ‘fundamentalismo’[5] é a interpretação restrita do livro sagrado de forma a repudiar tudo e todos que não concordem com tal interpretação; trata-se de um “terrível simplificador” que pretende explicar e fornecer uma moral para o passado, o presente e o futuro da humanidade. Lembrando alguns traços do fascismo ou ‘protofascimo’ elaborado por Umberto Eco (1995), têm conquistado visibilidade na mídia as paradas dos “homens-bomba”, (que incluem crianças e mulheres), e as escolas de doutrinação islâmica ou madrassas, usadas como perversão do islamismo e impondo à população a cultura obscurantista Talibã, no Afeganistão[6]. O auge de visibilidade dos efeitos da doutrinação islamofascista parece ser representado pela organização global da Al Qaeda, cujo líder Bin Laden, que nada tem de socialista ou marxista, diz lutar por uma causa supostamente “santa” contra os “infiéis do mundo ocidental”[7].

A atitude fascista não morreu

O nazi-fascismo foi derrotado na 2ª. Grande Guerra, em 1945, mas ele não morreu. O que hoje acontece no cenário mundial nos leva a suspeitar que “ele não morrerá entre nós”, alerta o psicanalista francês C. Melman (2000).

A fundação do Partido Nazista, nos EUA, é de 1970. Recente levantamento realizado nos EUA contou 474 grupos de extrema direita, organizados naquele país, alguns agindo abertamente em diversos setores governamentais, inclusive com atos contra a democracia e ao governo legitimamente constituído. A “Nação Ariana’ e a ‘Identidade Cristã’, são considerados pelo FBI como os dois grupos mais perigosos e ameaçadores dos EUA. O ataque terrorista que destruiu todo o edifício do governo federal, em Oklahoma City, em 1995, foi ato de um membro da extrema direita com ligações com o grupo ‘Identidade Cristã’. “O uso da religião para propósitos fascistas e a perversão da religião em um instrumento de propaganda de ódio, como um cruzada antidemocrática em nome da salvação da democracia, é uma tática disseminada entre os grupos de extrema direita” (Carone, 2003).

Balizas para comentar esse filme:

Nosso olhar sobre o filme “A onda” focaliza três linhas de análise para comentários visando estimular o debate: (1) o nazi-fascismo como ideologia política totalitária de direita; (2) a psicologia de massas e a servidão voluntária dos indivíduos a um líder, grupo ou causa mítica; (3) a propaganda política e ideológica (4) o recurso da ‘experiência pedagógica’, como meio de ir para além do mero aprendizado de conceitos teóricos. Notar que o professor do filme adota a experimentação com grupo como recurso didático ‘vivencial’ [Dinâmica de Grupo e Sociodrama], que sempre implica em algum risco de perder o controle da experiência pedagógica. O “sócio-grupo” seria o grupo tarefa estruturado e orientado em função da execução ou cumprimento de uma tarefa, e o “psico-grupo” ou grupo estruturado, orientado e polarizado em função dos próprios membros que constituem o grupo, foram criados por Kurt Lewin – judeu alemão emigrado para os EUA - tinham como propósito serem não somente técnicas de aprendizagem alternativa à aula tradicional, considerada chata ou enfadonha mas de efetivamente trabalhar a dimensão afetiva e emocional de cada grupo enquanto gestalt, onde estão presentes preconceitos, dogmatismo, coesão, fé cega num líder, bloqueios, filtragens, enganos e auto-enganos na comunicação entre seus membros[8] etc.

Apesar de não ser um grande filme, e ainda prejudicado com o uso de cópias desgastadas, gravadas da televisão aberta[9], “A onda’ têm a virtude de levar o telespectador a não ficar indiferente aos fenômenos de massificação, fanatismo e intolerância do ser humano. Contudo, o filme é um sério alerta para: a) o risco do “sujeito” perder a “liberdade” e “autonomia”, submetendo-se incondicionalmente ao poder do grupo, sua “causa absoluta” veiculadas por slogans e palavras que ordenam uma ação automática, fazendo desaparecer o sujeito[10] ; b) problematiza a possibilidade de ressurgimento do nazi-fascismo, ou dos totalitarismos de direita ou de esquerda, tendo em vista o desgaste das democracias representativas de nossa época; c) conscientiza a formação de grupites de adolescentes e gangues potencialmente intolerantes e criminosas. Há uma tendência narcisista nesses grupos que, geralmente, são atraídos pela proposta de igualdade e novo sentido existencial-no-mundo, a fundação na vivência da territorialidade, o desenvolvimento de um código de linguagem próprio onde os atos de rejeição dos “mais fracos”, “desgarrados” ou “diferentes” parecem legítimos e morais. Basta ver o recreio de qualquer escola onde os membros dos grupos reproduzem sua imagem narcísica no modo de ser, vestir, falar, pensar etc. Evidentemente, tal atitude faz parte do processo de desenvolvimento da personalidade em busca de identidade própria, mas pode também ser a base para a formação de um traço de caráter ‘blindado’, conforme o estudo de W.Reich.

O trote seria um tipo de onda?

O tradicional trote universitário é um ritual de violência sádica de um grupo “mais velho” sobre os “novos” ou calouros. O trote pode ser tipificado como uma formação protofascista, no sentido proposto por Eco (1995), na medida em que um grupo visa humilhar os supostamente mais fracos? Que fazer para quebrar essa “tradição de família” presente ainda em algumas universidades? O que esse ritual de passagem representa na cultura universitária? Será que aulas, palestras, leis, punições, bastam para conscientizar e levar à nova geração evitar essa prática? Será que medidas impostas pelos colegiados de cada instituição, investidos de autoridade, devem proibir com rigor o trote violento, por exemplo, reinventando regras com o sentido da pró-solidariedade? Que metodologia ou técnicas de ensino e aprendizagem poderiam ser usadas para quebrar essa tradição e instaurar uma consciência verdadeiramente crítica e historicamente elaborada sobre tal fenômeno?

Ascensão do irracional?

O retorno do irracional em forma de ‘onda’ ou de ‘massa’ parece ser uma resposta desesperada de algumas culturas resistindo à modernização ocidental liberal-burguesa-democrática; a globalização econômica em que pese o seu sentido capitalista excludente também tem produzido novas idéias e tecnologias que beneficiam toda a humanidade, embora causem em alguns grupos mais tradicionais o medo de perder sua identidade comunitária, tal como analisa Castells (1999) e Japiassu (2001).

Aos educadores, é imprescindível trabalhar junto com os alunos, desde cedo, a ética da tolerância, o respeito à diversidade cultural e as diferenças demasiadamente humanas, bem como o desenvolvimento do espírito democrático e pluralista, onde a paz e a liberdade devem ser ativas.

O conhecimento científico, a informação e a tecnologia são insuficientes para melhorar o ser humano. É preciso desenvolver uma nova educação que encare o mundo complexo e promova, além da pesquisa que aspira o conhecimento novo, também uma sabedoria prática para se viver a vida pessoal e coletiva em tempos tão sombrios.

Os sintomas atuais de ascensão do irracional humano vem se revelando não só através de grupos nazi-fascistas que formam uma ‘onda’ pregando a “supremacia da raça branca”, a perseguição de judeus, negros, índios, homossexuais, nordestinos do Brasil, feministas, esquerdistas, democratas, etc. O fundamentalismo religioso (cristão, islâmico e judaico), os atos dos criminosos ligados ao narcotráfico, o terrorismo protofascista de grupos ou de Estado, sem projeto político, podem ser considerados sintomas de “ascensão do irracional” (em nosso artigo, em http://www.espacoacademico.com.br/004/04ray.htm, observamos três sintomas do protofascimo no terrorismo: o desprezo do diálogo pelo ato – do ato pelo ato; o argumento pela emoção. Para Eco (1995) é a “a ação pela ação’ e a “luta pela luta”. Na leitura psicanalítica é representado pelo ‘mais-gozar’ da ação e o ‘mais-gozar’ da luta sem fim).

O filme “A onda” focaliza, por um lado, o imperativo da ordem e disciplina e, por outro, o desejo de controlar a pulsão agressiva dos seres humanos travestido em organização fascista aspirando ser moral.

“A onda” pode ser vista através de alguns movimentos políticos-ideológicos de nossa história: quando atuou em nome de uma suposta “superioridade da raça ariana”, causou o genocídio nazista; quando levantou a bandeira da “causa do proletariado” milhares foram estigmatizados de ‘anti-revolucionários’, ‘reacionários burgueses’, ‘intelectuais inúteis’; quando surgiu com o nome de “revolução cultural” fez o povo quase perder suas tradições; quando “em nome de Deus” milhares são assassinados; quando “em nome do Bem contra o Mal”, da “causa justa” ou da “democracia”, invadiu países, destruindo prédios e vidas; Enfim, quanto o irracional está a serviço da racionalidade, o resultado é a imoralidade, o sofrimento e a morte em massa. Quando a intolerância quer ser reconhecida como moral e legal, justificando que a repressão da autonomia dos sujeitos é necessária “para o bem de todos”, a razão se faz cínica[11]. Assim, é preciso reconhecer que ser racional não basta para singularizar o que é ‘ser humano’, ou seja, falta saber se ser racional é condição sine qua non para ser razoável e capaz de estabelecer empatia para com o nosso semelhante.

Depois do filme

Outras experiências pedagógicas foram realizadas e filmadas depois de “A onda”, que parecem ter sido influenciadas pelas pesquisas dos laboratórios de dinâmica de grupo e experimentação cientificamente controlada, desde a década de 1970. Recomendamos aos pedagogos, psicólogos, historiadores, filósofos, sociólogos, antropólogos, entre outros, assistirem aos documentários: Olhos azuis[12], coordenado pela professora Jane Elliott e “Zoológico humano”, conduzido pelo psicólogo P. Zimbardo (Stanford University). Ao conduzir a experiência dos grupos, a professora Elliot evidencia o racismo, os fenômenos de grupo, a liderança, a submissão voluntária, etc. No “Zoológico humano”, recomendamos maior atenção para a 2ª. Parte, que trata da submissão do sujeito ao grupo. Em ambos, podemos observar fenômenos como ‘conformidade’, ‘disciplina’, ‘bloqueios’, ‘filtragens’, ‘contágio social’, a influência do ‘poder’, a ‘submissão’, as ‘distâncias sociais’, ‘barreiras psicológicas’, a ‘psicose de massa’, o ‘vigiar e punir” de uns contra outros para que ninguém seja a si próprio, a delação ou dedurismo como prática corriqueira de difícil verificação e confrontação com a verdade, o ‘narcisismo das pequenas diferenças’ proposto por Freud, a ‘regressão dos indivíduos a condição de massa ’ (conforme dito de Adorno: o fascismo ao manipular as massas, faz “psicanálise às avessas”), etc.

Continua sendo atual o discurso do professor Ross, proferido no final de “A onda”:

“Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”.

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TUTORIAL PARA DOWNLOAD DO FILME "A ONDA Clicando em <http://paginas.terra.com.br/arte/culturainformacao/ > clicando, cai direto em “Cultura e informação” e ver “dicas e notícias” sobre como fazer download do filme “A onda”

Também indica outro endereço para este filme só que em inglês: http://www.xenutv.com/cults/wave.htm

O endereço da comunidade "A onda - The wave" > no Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1262617

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* Texto produzido para orientar meus comentários sobre o filme “A onda”. Agradecimentos especiais a Moisés Storch (Movimento Paz Agora) pela valiosa revisão e sugestões do texto, e Sergio Becker pelo retorno crítico.

[1] Filme: “A onda” [ The wave] Dur.: 45 minutos Direção: Alex Grasshof - País: EUA - Ano: 1981 Elenco: Bruce Davison, Lori Lethins, John Putch, Jonny Doran,Pasha Gray, Valery Ann Pfening. Obs: o filme foi exibido uma única vez no início da década de 1980 (1981 ou 1982). Depois, a TV Educativa-Rio também o exibiu, realizando um excelente debate com convidados de diferentes áreas do conhecimento.

[2] Conferir o estudo de HARENDT, Hanna. O sistema totalitário. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978.

[3] Ver o filme “As bruxas de Salen”, baseado na peça The Crucible [O sacrifício], de Arthur Miller.

[4]O Atentado do Riocentro foi um ataque a bomba frustrado contra o Pavilhão Riocentro no dia 30 de abril de 1981. Na data realizava-se no edifício um show em homenagem ao Dia do Trabalho. Cerca de 21:30, com o evento já em andamento, uma bomba explodiu dentro de um carro no estacionamento. A bomba seria instalada no edifício mas explodiu antes da hora, matando um dos passageiros do carro e ferindo gravemente o outro. O Puma levava dois passageiros, o capitão Wilson Luís Alves Machado e o sargento Guilherme Pereira do Rosário. Ambos trabalhavam para o DOI-Codi do estado do Rio de Janeiro e o sargento Rosário tinha treinamento do Exército em montagem de explosivos. Na ocasião o governo acusou como culpado pelo atentado os integrantes radicais da esquerda. Essa hipótese já não tinha sustentação na época e atualmente já se comprovou, inclusive por confissão, de que o atentado no Riocentro foi uma tentativa de setores mais radicais dentro da ditadura (principalmente o CIE e o SNI) de fazer crer que era necessária uma nova onda de repressão e paralisar a lenta abertura política que estava em andamento. Uma segunda explosão ocorreu a alguns quilômetros de distância na miniestação elétrica responsável pelo fornecimento de energia do Riocentro. A bomba foi jogada por cima do muro da miniestação, mas explodiu em seu pátio e a eletricidade do pavilhão não chegou a ser interrompida. Esse episódio é um dos que marcam a decadência do regime militar no Brasil que daria lugar dali a quatro anos ao restabelecimento da democracia (Cf.: http://pt.wikipedia.org/wiki/Atentado_do_Riocentro).

[5] Cf.: ROUANET, S. P. “Os terríveis simplificadores”. Folha de S. Paulo, 11.jan.2001.

[6] A identificação de traços protofascistas em alguns movimentos fundamentalistas (Hizbolá, Hamas, xiitismo iraniano, etc) é um posicionamento contestado com argumentos vagos, por exemplo, pelo escritor Tarik Ali (Ver debate no programa Roda Viva, da TV Cultura-SP).

[7] “Não que seja uma causa real, mas a usam. Não é estranho que grupos neonazistas adorem Bin Laden. Muitos substituíram a imagem de Hitler pela dele”, disse Pilar Rahola, (Folha de S.Paulo, 25 de ago 2006). Nascida em Barcelona em 1958, Pilar Rahola, ex-deputada espanhola de esquerda, é doutora em Filologia Hispânica e também em Filologia Catalã (Cf.: GABRIEL BRUST "Há uma esquerda traindo a liberdade".Entrevista com Pilar Rahola).

[8] Cf.: MAILHIOT, G. B. Dinâmica e gênese dos grupos. São Paulo: Duas cidades, 1976.

[9] A maioria das cópias que existem nas faculdades foi originalmente gravadas na TV Globo ou na TV Educativa do Rio de Janeiro, que, após a exibição, promoveu um debate com convidados. O pessoal do Café Filosófico (Docentes Responsáveis: LAERTE MOREIRA DOS SANTOS, PATRICIA HETTI, LOURDES CARRIL) está disponibilizando na Internet como fazer download. > http://www.cefetsp.br/edu/eso/laerte/

http://paginas.terra.com.br/arte/culturainformacao/

Também indica outro endereço para este filme só que em inglês:

http://www.xenutv.com/cults/wave.htm e o endereço da comunidade "A onda - The wave" no Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1262617

[10] Não apenas desaparece o “sujeito” submetido ao poder do grupo, como também o nazi-fascismo fez desaparecer os sujeitos, primeiramente pelas metáforas animais (comparavam os judeus, comunistas, homossexuais, a ratos, répteis, insetos como piolhos, traças, e germes “que devoram os pilares da vida econômica, social, religiosa e política da nação...”. Em verdade, “a parasifobia é tão masoquista quanto sádica, pois a base recalcada pode ser transformada em perseguição à ameaça externalizada, em destrutividade paranóica” (Carone, 2003).

[11] Cf.: ZIZEK, S. Eles não sabem o que fazem. O sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990

[12] “Olhos azuis” tem a versão com adultos e outra com adolescentes. Foram exibidos no Brasil pelo canal GNT do sistema Net.

por RAYMUNDO DE LIMA



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Este também é muito bom:


http://moviesense.wordpress.com/2009/02/25/die-welle-the-wave-a-onda/

"Uma das perguntas sem resposta de The Reader pode ter a sua contestação em Die Welle: afinal, como foi possível a ditadura de Hitler? E mais: ela poderia se repetir hoje em dia? A juventude atual, especialmente na Alemanha, rechaça a idéia de virar uma “massa de manobras” de um ditador. Inicialmente muita gente pode não entender como isso foi possível, mas o bem acabado filme alemão Die Welle mostra que a manipulação de grupos não é nada assim tão complexo. Basta usar um conceito bem em voga ultimamente, da ação participativa, além de observar com atenção as demandas de uma massa descontente e desunida. Com um roteiro escrito com esmero e uma direção dentro da escola do “novo cinema alemão”, Die Welle é um destes bons exemplos de filmes que podem ser feitos sobre temas bastantes atuais e que se originam da Europa.

A HISTÓRIA: O professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) queria dar uma classe de anarquia para seus alunos do ensino médio, mas foi “obrigado” por um colega e pela diretora da escola a preparar aulas de autocracia. Inicialmente ele fica surpresa com a sala cheia – provavelmente boa parte dos alunos está mais interessado no professor “rock’n roll” do que no tema em si, já que a maioria nem sabe do que se trata autocracia -, com um número de alunos que só aumentaria graças a sua maneira “diferente” de lecionar. Impelido por um questionamento em sala de aula e pela vontade de mostrar trabalho para os demais colegas, Rainer começa um experimento em classe que vai mudar a vida de seus alunos e criar perplexidade na comunidade local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Die Welle): A manipulação das massas ou, em outro grau, dos indivíduos, não é algo novo. Também não é uma prática que foi abolida com o fim dos sistemas totalitário. Parece um papo chato, mas a verdade é que diariamente várias fontes e correntes estão agindo para manipular você e eu. Seja para o consumo ou para apoiar uma forma de atuar – e condenar outras; ou para apoiar umas idéias em detrimento de outras. Não importa. Diariamente somos manipulados – ou estamos sujeitos a isso.

Mas uma coisa é ser manipulado para fazer algo “inofensivo”, como comprar um produto que você não tem nenhuma necessidade, outra é ser impelido a formar um grupo fechado que exclui tudo e todos que não estiverem de acordo com seus preceitos. Sobre isso e outras “coisitas” é que trata Die Welle. No melhor estilo de experimentação em sala de aula, Rainer Wenger quer demonstrar, durante a semana de aulas de seu curso de autocracia, como é possível o surgimento de movimentos ditatoriais. Impressionante como os jovens “avoados”, desunidos e individualistas aderem a um movimento que prima pela disciplina e pela padronização dos indivíduos.

Inicialmente o que era uma “brincadeira” ganha traços de seriedade e, como pode ocorrer em qualquer situação – com ou sem experimento em sala de aula -, sai do controle através de mãos de extremistas desequilibrados. Acredito que os jovens que o filme mostra começaram a aderir as propostas do professor um pouco por “coña”, ou seja, na brincadeira. Mas depois, ao sentirem suas opiniões sendo escutadas no conjunto de um processo de “construção” do grupo, assim como de se sentirem protegidos por pessoas daquela “irmandade”, cada aluno também se sentiu forte e valorizado – coisa que muitos deles não sabiam o que era, em uma comunidade competitiva onde interessa sua origem (classe social e raça) mais do que sua capacidade individual -, transformando aquela brincadeira em algo muito sério e real.

A situação saiu do controle e o professor, avesso ao que acontecia fora da sala de aula, não se deu conta disso até que fosse tarde demais. Claro que a ânsia dele em ser valorizado e levado a sério como professor – mesma angústia daqueles jovens desorientados – ajudou em sua cegueira. A verdade é que experimentos como esse deveriam ser muito melhor controlados – e, preferencialmente, explicados. Não adianta apenas experimentar, é preciso providenciar “legendas” sobre o que se está fazendo, deixando claro motivos e riscos. Do contrário, uma idéia legítima de “apropriação” do conhecimento pode se transformar em um palco para a exposição de patologias e/ou descontroles. Como no caso do que se vê em Die Welle.

O filme, dirigido com bastante ritmo e cuidado pelo jovem Dennis Gansel, trata de vários assuntos em paralelo. Ao mesmo tempo que fala sobre a manipulação das pessoas, trata da falta de sentido e de orientação na vida dos jovens – um tema atual há algumas décadas e que algumas vezes parece apenas ter piorado. Mas ele trata também da responsabilidade dos “mestres” e da busca por valores que sejam legítimos. Mas, mais que tudo isso, Die Welle trata da capacidade do ser humano em fazer absurdos quando pode se esconder “atrás do coletivo”. Brigas de torcidas de futebol, linchamentos públicos, entre outros exemplos nos mostram de tempos em tempos que este tipo de comportamento “animal” insiste em perdurar. Pessoas “esclarecidas” e letradas se comportam como bestas quando tem ao seu lado o apoio de pessoas igualmente “cheias de razão” (estou sendo irônica, claro).

E como é inevitável, o filme mostra que existem dois lados da moeda chamada “autocracia”. Se em uma face do experimento de Rainer Wenger vemos a jovens se sentindo “poderosos” enquanto grupo unido em uma mesma “ideologia”, de outro contemplamos a exclusão sumária de qualquer forma de pensamento contrário. Não existe espaço para dúvidas ou para idéias diferentes daquela que a gestão autoritária do grupo dominante prega. Isso pode ser visto em sistemas autocratas mais óbvios, como o de uma ditadura, e até mesmo em formas “prioritárias” de pensamento em sociedades democráticas como a nossa – quem hoje em dia questiona o capitalismo, o livre consumo, o uso da internet em todos os cantos? O pensamento crítico, geralmente, não é bem visto ou considerado de “bom tom”. Mesmo na tão proclamada democracia.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Die Welle é baseado em uma história real. Mas diferente do que o filme mostra, a história que inspirou o escritor nova-iorquino Todd Strasser – e, posteriormente, o trabalho dos roteiristas Peter Thorwarth e Dennis Gansel (diretor do filme) – ocorreu nos Estados Unidos. Mais precisamente na classe do professor Ron Jones, que resolveu fazer um experimento chamado de “Terceira Onda” com os alunos da escola onde lecionava em 1967, a Cubberley High School em Palo Alto – região que ficou famosa pela corrente crítica da comunicação surgida na década de 1940.

Incialmente, parece que o roteiro do diretor e de Peter Thorwarth ambientam o filme em uma cidade comum da Alemanha nos “dias atuais”… Se é bem verdade que um experimento como o da “Terceira Onda” poderia perfeitamente ser tentado hoje na Alemanha – ou em qualquer país do mundo, praticamente -, alguns detalhes do filme deixam em dúvida sobre a intenção dos realizadores em datar esta história. Digo isso porque, apesar da cara de século 21, o filme mostra carros que expõe o prefixo BE que, segundo o site IMDb, deixaram de ser usados em 1975. Curioso, não?

Die Welle é mais um bom exemplo do novíssimo cinema alemão. Uma forma de fazer filmes que prima pelo dinamismo, pela câmera acelerada, por temáticas contemporâneas tratadas de forma crítica e que, muitas vezes, enfocam a juventude daquele país. Bons exemplos deste cinema são Lola Rennt; Goodbye, Lenin! e Die Fetten Jahre sind Vorbei (ou The Edukators), só para citar alguns dos que eu já vi e recomendo.

Outro tema que o filme trata é sobre a dificuldade dos professores hoje em dia em conseguirem ensinar algo… antes do experimento de Rainer começar, praticamente todos os alunos estavam desinteressados no tema e no que a aula podia render. Só quando ele começou o experimento e, com ele, a revelar o conhecimento através da “participação” dos alunos é que a classe ganhou outra dinâmica. Os jovens se sentiram interessados e motivados para aprender, afinal, trouxeram para a sua vida cotidiana idéias que tinham em sala de aula. Este tipo de aula atualmente é praticamente considerada “padrão” nas escolas, quando professores são incentivados a dar classes de intercâmbio constante entre ensinamentos do professor e dos alunos – vide Paulo Freire e sua concepção que ganhou admiração mundial. Ou seja: o que se vê ali não é de todo absurdo, o problema é a forma com que a idéia cresceu e perdeu o controle. O que faltou, para mim, foi a contextualização e as explicações dos objetivos e do sentido por parte do professor. Mas algo é fato: definitivamente não é fácil ser professor hoje em dia.

O elenco todo, formado basicamente por jovens, está muito bem. Destaco, do núcleo principal da história, Frederick Lau como Tim Stoltefuss, o garoto que leva mais a sério o experimento da “Onda” (e que demonstra, para mim, propensão ao desequilíbrio e ao extremismo desde o início, levando muito a sério a brincadeira); Max Riemelt como Marco, um dos líderes da juventude local e namorado de Karo, interpretada por Jennifer Ulrich, uma das duas vozes dissonantes do “movimento”; Christiane Paul como Anke Wenger, professora e esposa de Rainer; Jacob Matschenz como Dennis, um dos garotos que procura defender o movimento até depois que ele já se mostrou desastroso.

Também destaco a brasileira (pois sim!!) Cristina do Rego como Lisa, amiga de Karo que acaba mudando totalmente seu comportamento quando ganha “força” através do grupo; Elyas M’Barek como Sinan, o jogador de pólo aquático que era um bocado desprezado por suas origens até o movimento começar; Maximilian Vollmar como Bomber, um dos “guardas” da Onda que acaba ficando perplexo com seu desfecho; Max Mauff como Kevin, o dissidente do movimento no início, um bocado “do contra”, e que acaba sendo “levado” pelos colegas para dentro da Onda; Amelie Kiefer como Mona, amiga de Karo que também fica contra o movimento; e por aí eu seguiria… No geral, os atores fizeram um belo trabalho.

Mas ainda que eu destaque todos os atores citados anteriormente, os grandes nomes do elenco são mesmo Jürgen Vogel e Frederick Lau. Ambos fazem papéis difíceis sem cairem no extremismo que seria “compreensível”. Em lugar disso, apresentam seus personagens de maneira bastante verossímel. Também gostei muito da atriz Christiane Paul, competente e muito bonita. E, quem diria, temos até a uma brasileira em um dos papéis principais!!

Die Welle teria custado € 5 milhões (de euros) e faturado, apenas na Alemanha, pouco mais de US$ 20 milhões – não me perguntem porque eles não calcularam a bilheteria também em euros… isso é uma incógnita para mim. O filme foi realmente um sucesso comercial no país que viu o nazismo tomar conta da sociedade há 70 anos.

O filme tem uma trilha sonora muito boa – especialmente para os que gostam de rock’n roll – assinada por Heiko Maile. Entre os destaque, clássicos como Rock ‘n’ Roll High School, dos Ramones, que abre o filme a todo volumen na apresentação do professor Rainer Wenger (que também veste uma camiseta da banda); Rock & Roll Queen, do grupo The Subways, entre outros grupos “rockzeira”.

Da equipe técnica do filme, vale a pena destacar o trabalho do diretor de fotografia Torsten Breuer e do editor Ueli Christen.

Em sua trajetória, Die Welle ganhou dois prêmios e foi indicado a outros seis. O filme mereceu, segundo os críticos, o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Frederick Lau no German Film Awards, assim como, na mesma premiação, o produtor Christian Becker levou o bronze na categoria de Melhor Filme. O filme ainda foi indicado no Festival de Sundance na categoria “World Cinema – Dramatic”, mas perdeu na disputa para Ping-pongkingen.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,5 para o filme – para os padrões do site, está bem. Como é de costume no Rotten Tomatoes, site que abriga textos de críticos dos Estados Unidos, existem poucos textos sobre o filme alemão – exceto pelos ganhadores de Oscar e premiações afins, os críticos de lá não costumam assistir a muitos filmes estrangeiros. Ainda assim, o site abriga oito críticas positivas e quatro negativas para Die Welle – o que significa uma aprovação de 67%.

CONCLUSÃO: Um bom exemplo do “novíssimo” cinema alemão, Die Welle trata da possibilidade do ressurgimento de movimentos totalitários e excluentes, inspirado em uma história real de experimento em sala de aula feito nos Estados Unidos em 1967. O filme tem um ritmo veloz, bem dirigido, com um roteiro que consegue segurar a atenção e manter um certo suspense – sem transformar a história em algo pesado ou fictício demais – e, para fechar a regra de um bom filme, com interpretações bastante convincentes. Uma história curiosa sobre a manipulação de pessoas, a falta de rumo e de valores de uma sociedade consumista e individualista e os rumos que ela pode tomar. Bacana por ser crítico e, principalmente, bem narrado. E, para nossa surpresa, com uma brasileira entre as atrizes principais.

SUGESTÃO DE LEITORES: Este é o primeiro filme de uma série que vou assistir do cinema alemão. Afinal, foi a Alemanha o país que ganhou na enquete que eu propus aqui no blog durante algumas semanas. A idéia é assistir a filmes recentes e a alguns “clássicos” que eu ainda não vi do cinema daquele país. Mas vou avisando que filmes como os que eu citei neste texto e que eu já vi não pretendo ver novamente… mas vou, sempre que possível, citando algumas produções excelentes da Alemanha que eu já tenha visto – sempre que elas tiverem algo a ver com o filme que estou comentando. Também aceito sugestões… como sempre.

Também queria registrar que esse filme foi indicado, há muito tempo atrás, por minha amiga e leitora deste blog, Vanessa. Humpf!!! Finalmente assisti ao filme, hein? E gostei muito do que eu vi. É o típico filme “pop” crítico bacana de se ver. Obrigada pela sugestão."


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