Homenagem merecida.

Reproduzida fielmente do jornal Folha de São Paulo:

(Pensata) Artigo do Luiz Caversan em 12/03/2010:


Glauco e a arte da anarquia


Menino, deixa de anarquia, dizia minha velha tia ranzinza quando eu fazia alguma coisa errada, aprontava alguma travessura.

Anarquia, ali, não tinha nada a ver com anarquismo, mas sim com a capacidade sobretudo das crianças ou daqueles que mantêm a alma juvenil de dar uma esculhambada básica para tornar a vida mais leve, aceitável.

Em paulistês, anarquia é isso.

E assim era o Glauco, assim são os personagens do Glauco, em permanente anarquia para rir da vida e de si mesmo.

Difícil pensar em vida leve e aceitável para falar do Glauco agora que ele foi morto a tiros junto com o filho, numa tragédia medonha.

Difícil lembrar o quanto ele era engraçado, o quanto anarquizava seus amigos e colegas de trabalho, entre os quais me inclui durante muitos anos, com todo o orgulho do mundo.

Talvez fosse o caso de deixar as histórias engraçadas para outro dia, mas vou assumir o risco da heresia, porque o que rola é admiração, respeito e desde já saudades.

Na Folha, onde vivi em tempo integral 21 anos, o Glauco era, ele mesmo, um personagem.

No tempo em que os desenhos de cartunistas e chargistas eram feitos na base do papel e caneta, virava e mexia lá estava aquele cara magrelo com um envelope pardo na mão, entrando meio que furtivamente pelos corredores do quarto andar da Alameda Barão de Limeira, 425, sede da Folha.

Sempre, sempre e sempre tinha uma piadinha, um sarrinho para tirar, e eu, entre outros, costumava ser uma de suas vítimas, assim como o editor de arte Jair de Oliveira (vítima preferencial), o desenhista Emílio Damiani, o Carlos Alberto Faraó, também editor, o Orlando, entre tantos outros.

O humor era sua arma sobretudo quanto ele estava atrasado com seu trabalho --e ele sempre estava atrasado com seja lá o que tivesse que fazer para o jornal.

Numa ocasião, ele tinha que produzir uma charge para a editoria de política e não aparecia. Desesperado, o editor foi ao secretário de redação, Caio Túlio Costa, dizendo que o Glauco não entregara seu trabalho e que não havia o que colocar no lugar. Depois de muitas ligações, Caio conseguiu localizar o artista ao telefone. Diálogo que rolou, logo depois reproduzido pelo Caio:

- Glauco, cadê a charge?

- Não fiz.

- Como não fez? Venha para cá e traga imediatamente o desenho.

- Não vou!

- Como não vem, vem sim! (gritando)

- E se eu não for?

- Se não vier será demitido! (gritando mais ainda)

- Ah, é?

- É, sim!

- Então eu vou...

Uma hora depois, mas ainda a tempo de entregar a charge, lá vem o Glauco se esgueirando pelos cantos, para não ser visto pelo Caio. Mas não adiantou nada, porque todos os desenhistas e arte finalistas que estavam na redação tinham elaborado desenhos reproduzindo a situação e montado um grande mural em homenagem à "coragem" do Glauco. Quando ele chegou, levou uma tremenda vaia e foi obrigado a ver todos os desenhos. Um deles retratava o cartunista com um saco de supermercado na cabeça, com dois furos para os olhos, dizendo: "Oi, Caio, cheguei!".

Outra história engraçada, acho que contada pelo Angeli, o que significa que tem grande chance de ser mentira, é que um dia policiais de um camburão prenderam o Glauco. Alegação: suspeito.

Sim, era um tempo, anos 80, em que ser suspeito, seja lá o que isso significasse, era suficiente para ser detido, embarcado no chiqueirinho da viatura, tomar umas bordoadas, quando não acontecia coisa pior.

E o Glauco era o típico suspeito, portanto, como ele sempre dizia, "mãozinha na cabeça" e já para a gaiola, com direito a apenas uns safanões.

Por sorte, um dos policiais era fã dos desenhos do Glauco na Folha, mas não acreditou minimamente que aquele cara fosse ele. Glauco insistiu que era ele mesmo e pediu papel e caneta e começou a desenhar para os policiais, reproduzindo justamente a situação que estavam vivendo, com o mãozinha na cabeça e tudo. Depois de muitas risadas, os tiras acabaram deixando o "suspeito" na porta do jornal, depois de pedirem para ele autografar os desenhos.

Quem conhece os personagens de comportamento sexual bizarro do Glauco certamente alguma vez ficou imaginando onde aquele cara arranjava tanta besteira para falar, certo?

Imagine só se esta cena não dá um cartum:

Como era e ainda é praxe na Folha, uma autoridade da qual não me lembro foi recebida em almoço no 9o andar do jornal. Também como era praxe, o visitante seria acompanhado até a portaria.

Como executivo do jornal, lá estava eu junto ao visitante, mais o "seu" Frias, publisher da Folha, o diretor de redação, Otavio Frias Filho, e mais um ou dois editores dos quais também não lembro.

Na descida, o elevador para no andar da redação e quem entra? Claro, o Glauco.

Vendo todo engravatado e muito formal, ele conteve a piada e foi logo para o fundo do elevador, onde ficou quietinho. Por pouco tempo: assim que o elevador parou no térreo, e sem que ninguém percebesse, ele deu uma tremenda passada de mão na minha bunda e saiu de fininho, com aquele sorrisinho sacana nos lábios.

Mais uma: domingo de Carnaval, plantão na redação, poucas pessoas trabalhando, eu era responsável pelo fechamento do jornal e da primeira página. Toca o telefone, o funcionário responsável pela portaria:

- Olha, tem um vagabundo aqui dizendo que é artista e querendo entrar de qualquer jeito. Eu ia chamar a polícia, mas ele disse que conhece o senhor...

- Quem é o cara?

- Ele não quer mais falar comigo. O cara está de camiseta sem manga, bermuda e sandália havaiana, diz que é artista e que precisa fazer um desenho pro jornal de amanhã. Acho bom o senhor vir até aqui, porque esse cara eu não deixo entrar, não...

O diagramador que estava trabalhando ao meu lado, ouvindo a conversa toda, logo matou a charada:

- É o Glauco. A charge de amanhã é dele...

E lá fui eu para a portaria, encontrando o porteiro, enorme, a ponto de enfiar a mão na cara do magrelo irreverente.

Bem, foi um custo convencer o funcionário de que aquele sujeito que tinha acabado de sair de um bloco carnavalesco "naquele" estado era mesmo o responsável pela charge política da página mais nobre do jornal.

Mas como eu assumi a responsabilidade, o rapaz acabou liberando o "suspeito" e, como sempre, ele acabou produzindo uma charge impagável; irreverente e mordaz. Como ele.

Em 2004, pouco tempo antes de deixar a redação, encontrei pela última vez o Glauco. Me deu um abraço carinhoso, obviamente fez uma piadinha com minha falta de cabelos e me convidou para conhecer sua comunidade religiosa.

Eu perguntei: mas como você consegue ser um líder religioso e fazer esses desenhos tão loucos?

- Qual é o problema? A vida é assim mesmo...

Pois é, meu amigo, a vida é assim mesmo.

E, de um jeito ou de outro, acaba.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

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