Tô com febre

A senhora disse que não queria o chocolate
não tinha fome
tinha acabado de comer e tomar coca-cola

Olhou pra cima e disse o que importava:
"Acho que tô com febre..."

Não conseguimos processar
saber o que fazer na hora

Olhamos

E fomos embora
deixando ela do jeito que estava
antes de a gente passar

Ela,
a senhora, pedinte, mendiga, velha, moradora de rua e ser humano
sentada no chão entre uma farmácia e uma churrascaria-pizzaria

Entramos no carro e peguei pra mim o pedaço que ela não quis

E fomos embora, exatamente como todos ali vão, sem nenhuma diferença

Só hoje escrevi
para a forma estranha das palavras estancarem
a agonia
de viver num mundo onde tudo passa nor-mal-men-te sem chamar mais atenção

Nem mesmo a febre de alguém no chão
Nem mesmo a febre das palavras no chão

Nem mesmo o fato de a gente ser humano e não um cão.

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